| Tempo
Nelson Crespo
Inauguração a 22 de
Janeiro às 21h30
Patente até 27 de
Fevereiro.
5ª feira – Sábado:
14H30 – 19H30
As obras apresentadas na galeria Arte Contempo pertencem ao projecto
‘Tempo’ que procura reflectir sobre a natureza da reprodução de imagens.
Recorrendo a objectos reciclados da indústria da impressão, as sete
obras seleccionadas e aqui apresentadas foram alteradas/editadas pelo
artista (com recurso a tintas de óleo, certas áreas foram
intensificadas) e subsequentemente fotografadas, recorrendo a filme
positivo e posteriormente digitalizadas em alta resolução. O resultado
final é uma reimpressão digital em papel de algodão do objecto
fotografado no estúdio.
O trabalho de impressão executado revela uma imagem sensível que convida
a uma experiência visual em que a noção de tempo é compactada.
A superfície captada pela fotografia de grande formato e ampliada pela
digitalização de alta resolução é o resultado de uma imagem que se
formou em consequência de um processo acumulativo do mecanismo de
impressão artística.
O processo fotográfico é aqui usado com precisão e intenção cirúrgica
para que o espectador veja aquilo que o artista vê, sem recurso a
distorção ou modificação da realidade.
Alude-se a múltiplas camadas de memória visual, com associações à
história de arte e à reprodução de imagens nas suas múltiplas
manifestações como resíduo da circulação de imagens no imaginário
popular.
Um olhar mais atento quase que nos convida a rever a alta velocidade as
nossas próprias imagens mentais, parar em determinados frames e avançar
em fast-forward. As imagens revelam algo simultaneamente
cinematográfico/fotográfico e vão um pouco mais além em revelar também
características pictóricas próprias da prática da pintura.
A superfície é tocada por luz, tinta e movimento.
O objecto não esconde que uma vez fez parte de uma máquina. E é esta
moldura que nos lembra que de facto estamos a olhar para uma superfície
plana.
A presença de um contorno real, dimensional, com agrafos, furos e marcas
de tinta acumulada induz uma estranha mas agradável experiência visual
onde a ilusão é pontualmente interrompida, desfocada, revelando outra
camada, outra nuance, outro plano.
O detalhe das tonalidades apagadas e esbatidas com marcas, números e
motivos, consequência de muitos anos de uso num processo mecânico,
mostra como o objecto que produziu a imagem se tornou no próprio
sujeito. Neste espaço perceptivo, ver, acreditar e compreender acontecem
em simultâneo.
O artista trabalha aqui como um curador, no sentido de ter criado um
espaço para um material coleccionável que de outra forma será
descartado. As imagens são límpidas e definidas e, sobretudo, denotam
que o artista desenvolveu uma afinidade com o sujeito. Mas o resultado é
também caracterizado por uma forte relação com ideias de paisagem
difusa, um oceano pre-histórico iluminado por uma lua intensa, visões
distorcidas por uma forte tempestade de areia no deserto, uma linha no
horizonte que anuncia ‘Terra à vista’ por marinheiros à deriva ou
imagens da superfície lunar.
Nelson Crespo
Janeiro de 2010

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